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O Quilombo do Campo Grande e a Inconfidência Mineira

Quilombo do Campo Grande

A Inconfidência Mineira, sem dúvida, foi uma sublevação sonhada pelas elites que estavam prestes a perder as tetas do Estado. Porém, sobre Tiradentes, vale registrar o que Auguste de Saint-Hilaire, ao passar por aqui (1816-1822), constatou na tradição ainda viva entre as pessoas de todas as castas:

 

Uma das causas da ruína (econômica) dessa província foi, como já disse, a pretensa conspiração conhecida sob o nome de Inconfidência de Minas. Eis em que consistiu. Pelos princípios da revolução francesa, parece que um indivíduo, que viajara pela Europa, costumava externar em conversas idéias muito imprudentes e perigosas[1]. Em um grande almoço para o qual fora convidado, deixou levar-se mais longe do que até então fizera; outros convivas seguiram-lhe o exemplo, as cabeças se exaltaram, e bebeu-se à libertação da América. O acontecimento foi comunicado ao governador, o visconde de Barbacena, pintado com as cores mais negras; era este um homem tímido e de vistas curtas; ficou aterrorizado com a notícia que lhe foi transmitida, e deu parte ao vice-rei no Rio de Janeiro. Este escreveu à corte, e pintou o que sucedera em Vila Rica como o ato de rebelião mais criminoso e temível”.

O governo português escolheu uma junta de homens severos e formou uma alçada que mandou para o Brasil. Fez-se o processo dos supostos conjurados, e a perseguição foi geral. Todos os homens de certa cultura foram tidos por suspeitos; não foi descoberta uma única prova da conspiração; não se encontraram armas e nem correspondência; porém as mais inocentes palavras foram consideradas como crime. O suposto chefe da conspiração, o de nome Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido pelo alcunha de Tiradentes[2], foi condenado à morte; sua casa foi arrasada; ergueu-se uma coluna truncada no local que ela ocupava, e no pedestal dessa coluna se gravou uma inscrição destinada a recordar o pretenso crime e o castigo recebido. As execuções limitaram-se felizmente a um único indivíduo; porém grande número de pessoas foi condenado ao exílio e confiscaram-se os bens dos banidos. Muita gente, temendo a mesma sorte, fugiu, e a província perdeu seus mais distintos habitantes[3].

Na seqüência, Saint-Hilaire explica que, para agravar a situação, os bens apreendidos dos supostos inconfidentes (lavras, imóveis e grandes fazendas) foram vendidos em leilão, com pagamentos parcelados, de forma que as pessoas que os compraram não tinham cabedal para fazer com que continuassem a produzir riquezas e, tampouco, para pagá-los e, assim, foram sendo usados, perdidos e revendidos até que se arruinasse completamente um grosso volume de cabedais. A isto, mais de uma vez, o sábio francês se refere como uma das principais causas da ruína econômica da Capitania de Minas Gerais.

Os tempos verbais utilizados pelos historiadores para descrever os planos da Inconfidência Mineira referem-se ao futuro de um pretérito que, realmente, nunca aconteceu, senão vejamos: armaria, sublevaria, dominaria e venceria; arrebanharia; fizera sentir que ofereceria; a senha seria; negaria; entraria para os depósitos militares; prepararia, faria, tornaria, empregaria; prenderia, deportaria, tiraria a cabeça e o sinal seria a derrama.

Os inconfidentes que realmente sonharam com uma pátria livre para o povo foram o cônego Luís Vieira e o gigante Tiradentes. Mas mesmo assim, esqueceram-se do povo em seus planos e nem a libertação dos escravos, que seria o mais subversivo dos argumentos revolucionários, pactuaram ou pregaram.

Outros Inconfidentes – ricos contratadores, contrabandistas, funcionários públicos e padres, a maioria em geral corrupta – pensavam em se verem livres do novo ministro Melo e Castro e da rainha de Portugal, para terem um país que continuasse a ser como uma propriedade particular, composto de incontáveis tetas onde pudessem continuar a mamar, como nos tempos de Pombal e de Gomes Freire de Andrade. Há também a verossímil hipótese de que tivessem a intenção de, a qualquer momento, lançar mão da denúncia premiada da época, o que Joaquim Silvério dos Reis, no entanto, fez primeiro.

Assim, a maldição de Gomes Freire caiu sobre a cabeça dos herdeiros do sistema de poder que ele mesmo criara e viciara com a derrama para se vingar das Minas Gerais. Exemplos de herdeiros de Gomes Freire seriam os seus grandes puxa-sacos, Cláudio Manoel da Costa, Basílio da Gama[4]e Inácio de Alvarenga Peixoto, este último, o puxa-saco de Pombal; os contratadores e os reinóis a eles ligados, a exemplo do velho José Álvares Maciel (o pai), Domingos de Abreu Vieira, João Rodrigues de Macedo, entre outros contratadores que cobravam os impostos do povo, mas não quintavam o ouro recebido que também não repassavam ao Erário Régio. Todos eles enganaram e traíram o Alferes. Entre os traidores, no entanto, é preciso destacar o biltre Inácio Correia Pamplona e o verme Joaquim Silvério dos Reis; destaque-se também Francisco de Paula Freire de Andrade, o infeliz filho bastardo de José Antônio e sobrinho de Gomes Freire de Andrade.

Em 1930, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, presidente do Estado de Minas Gerais mandou erguer monumento na então praça Rui Barbosa de Belo Horizonte, onde incluiu, entre os heróis inconfidentes, até o nome dos pilantras Fernando José Ribeiro e José Martins Borges[5]. Desde 1936, quando foi percebido o terrível equívoco, o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais tem tentado, em vão, retirar do monumento este novo labéu aos Heróis da Inconfidência[6].

Há quem entenda que também o nome de Alexandre, o valente escravo do padre Rolim deva ser retirado do monumento. Entendemos que não, pois se o Herói chorou a falta de valentes no momento da prova, por certo exultaria qualquer bravura, mesmo a de um escravo.

Ofensa aos verdadeiros inconfidentes é também a ulterior comparação e a associação da imagem de Tiradentes à figura do imperador Pedro I, cuja avó foi quem mandou absolver ou aliviar as penas dos reinóis delatores e condenar o Alferes à morte, mandando esquartejar o seu corpo, vilipendiar os seus restos mortais e infamar a sua memória.

Equivocada é também a associação do fim heróico do Alferes com o político Tancredo Neves. Sendo verdade que esse governador mineiro ensinava que “Se é radical não é mineiro, se é mineiro não é radical[7], teria Tancredo Neves, em apologia à sua própria personalidade, excluído da mineiridade[8] o herói Tiradentes.

Os apelidos de Tiradentes, o República, o Liberdade e o Corta-vento, “demonstram como era de conhecimento amplo sua pregação, aberta, livre de receios, destemerosa[9].

Conclui, Márcio Jardim, que o “radical revolucionário iluminista do século XVIII lavara a alma e entregara sua vida. No fundo ele já sabia que teria de ser assim; tempos antes se queixara publicamente de que não encontrava homens dispostos a fazer a revolução. Mas que a faria de qualquer maneira, porque embora não se arranjassem homens, ‘havia de armar uma meada tal, que em dez, vinte ou cem anos se não havia de desembaraçar[10].

Portanto, Tiradentes, quando se tratou da sua Pátria, foi radical sim; foi radical até a morte. Tiradentes, portanto, nada teria a ver com o primeiro ministro Tancredo Neves.

Tiradentes e cônego Luís Vieira, no entanto, sentir-se-iam honrados se tivessem o seu movimento e seus ideais comparados e associados à Inconfidência dos Escravos de 1719; se se estabelecesse um paralelo de sua bravura e de sua coragem, com a bravura e com a coragem dos pretos e gentalhas que, durante as lutas por mais de 30 anos, derramaram o seu sangue no Campo Grande, pelo bem maior que há neste mundo para qualquer povo ou nação: A liberdade!


[1] Portanto, se havia um tagarela, um falador entre os inconfidentes, este não era Tiradentes que, como se sabe, nunca viajou pela Europa.
[2] Como se vê, o herói Tiradentes não foi invenção de escritores; o povo mineiro, apesar da sempre velada repressão, sempre o considerou um herói.
[3] Viagem Pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, p. 93 e 94.
[4] O Uruguay, introdução de Francisco Pacheco, p. XV.
[5] Denunciaram falsamente a um desafeto, não só para se vingar do mesmo, mas provavelmente também na espera de alguma premiação da delação.
[6] In Por um Brasil Melhor, como queria Tiradentes, de Adalberto Guimarães Menezes, p. 18.
[7] Política, Arte de Minas, p. 19.
[8] Sobre o propalado conceito de Mineiridade, sugerimos a leitura de Mitologia da Mineiridade, de Maria A. do Nascimento Arruda, Brasiliense, 1990.
[9] A Inconfidência Mineira, p. 85.
[10] A Inconfidência Mineira, p. 87.

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Trecho retirado do livro – O Quilombo do Campo Grande – A História de Minas que se Devolve ao Povo, cedido pelo autor em decorrência do 21 de abril, feriado de Tirandentes.

Trata-se de uma obra inédita, que confirma todo o conteúdo de sua primeira edição indicando suas fontes privilegiadamente primárias em notas de rodapé.

O MGQUILOMBO lutou pela edição desta obra, tendo em vista a importância que tem na historiografia mineira e no aprofundamento que faz na história quilombola das Minas Gerais.

Todos os direitos reservados a Tarcísio José Martins.

Santa Clara Editora, Contagem-MG, agosto/2008
Registro FBN no 377.570, Livro 700, folha 230.
ISBN 978-85-87042-76-7       CDU 94(815.1)