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ARAXÁS OS ÍNDIOS ARAXÁS DO TRIÂNGULO EXISTIRAM?

OS ÍNDIOS ARAXÁS DO TRIÂNGULO EXISTIRAM?

Sim. Estes Araxás existiram.

Até a presente data inexistia na bibliografia especializada qualquer prova documental da existência dos tais índios araxás no ou do Triângulo Mineiro.

Francisco de Assis Carvalho Franco[1], em seu Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil[2], faz referência a índios araxãs, ou araxans na grafia atual, no verbete que dedicou ao bandeirante Antonio Raposo Tavares[3], comprovando ter sido esse mateiro paulista “a alma de toda a empresa da destruição das reduções jesuíticas espanholas”.
Interessa-nos, aqui, o arrocho que esse bandeirante gerenciou direta e indiretamente às então províncias jesuíticas de Guairá (com acento no “a”) e de Tapes, entre 1629 e 1634.
Guairá, atacada em 1629 por expedição comandada pelo próprio Raposo Tavares, segundo Carvalho Franco, ficava no Sul, entre os rios Paranapanema e Iguaçu, na margem esquerda do rio Paraná. Levaram muitos índios presos para São Paulo. Esses índios, informa o mesmo autor, “eram na totalidade guaranis, com denominações várias, formando três grandes divisões”. A região de Guairá, portanto, não se confunde com a de Tapes.
Com os índios escapos à destruição de Guairá, os missionários jesuítas recriariam várias aldeias entre os rios Paraná e Uruguai e, ao norte, em nesgas do baixo Mato Grosso. Interessa-nos, aqui, o região do Tape:
No Tape, propriamente dito, ficaram até 1634, criadas quinze reduções: Candelária de Piratini, Santos Mártires do Japão, São Carlos, Apóstolos, São Miguel, São Tomé, São José, Sant’Ana, Natividade, Santa Teresa, São Cristóvão, São Joaquim, Visitação, Jesus Maria, São Cosme e São Damião. O Tape era (…) todo o centro do atual Estado do Rio Grande do Sul”.
Os indígenas que ali habitavam também eram guaranis; em sua generalidade, guenoas, charruas, tapes, ARAXÃS, guananás, carijós, caaguás e outros”.
Em 1635, Luiz Dias Leme arrasou as reduções de Jesus Maria, São Cristóvão e Sant’Ana. Francisco Bueno, depois de 1637, atacou a de Santa Teresa e muitas outras[4].
Como se vê, após os ataques de Guairá os jesuítas fugiram com muitos índios, inclusive os Araxãs e fundaram várias outras aldeias no Tape, inclusive uma chamada Sant’Ana. Todas no Tape, nenhuma no Triângulo. Não há noticias de fugas ou escapes das aldeias do Tape.
Sem citar expressamente os fatos acima, Hildebrando Pontes[5] articulou a seguinte versão que, para evitar distorções, copiamos ipsis litteris de seu livro História de Uberaba e a Civilização no Brasil Central[6], como segue:
Esse núcleo foi a Aldeia de Sant’Ana do Rio das Velhas, hoje situado no município de Araguari[7]; pois as reduções do Guaíra(sic), fundadas em 1557, pelos jesuítas (…) no intuito de catequizar os índios que os paulistas e portugueses escravizavam, eram numerosas e chegaram a ter, depois de decorridos 74 anos de fundação, mais de cem mil indígenas!
(…). A principal dessas reduções era dividida em duas, com a interposição do rio Tibaji, afluente da margem esquerda (oriental) do Paraná, no Estado deste nome e formada de 14 (sic) reduções; sendo a Cidade Real de Guaíra[8] a principal e também a mais populosa, situada na confluência do rio Piquiri, tributário do Paraná, margem indicada, e logo acima do grande salto das “Sete Quedas”.
Anteriormente a este desastroso acontecimento, os jesuítas constituíram diversos núcleos às margens dos grandes rios tributários do Paraná, sendo certo que um dos mais distantes daquelas reduções fora o já referido, da Aldeia de Sant’Ana do Rio das Velhas. Para alcançarem este ponto, os padres da Companhia de Jesus teriam subido o Paraná até a foz do Paranaíba, por este acima ao rio das Velhas e subindo-o, até o local em que, à margem direita, se edificou a aldeia[9].
Admitindo tratar-se de presunção sua, Hildebrando evoca a opinião do seu contemporâneo, Dr. Nelson Tobias de Melo, juiz de direito da Comarca de Araguari, que teria escrito que: “Para a história primitiva desta zona seriam preciosos os relatórios, que devem existir em Roma, no arquivo da Companhia de Jesus, dos padres jesuítas que aldearam os índios na barra do Palmital, a uma légua da Aldeia de Sant’Ana, pois esses padres vieram da Guaíra (sic), após a devastação de Antonio Raposo, em 1630, e, como se sabe, é regra invariável da ordem que os padres catequistas eram e são obrigados a relatar anualmente ao provincial e este ao geral[10].
A presunção de Hildebrando e de seus colegas é razoável. Porém, como sempre questionamos e continuamos a questionar, encontra as seguintes contradições:
Depois das destruições de Guairá, umas aldeias teriam sido refundadas, quando muito, no “baixo Mato Grosso”. Porém, a maioria delas – QUINZE aldeias[11] – inclusive a de Sant’Ana, como documentou Carvalho Franco, foram fundadas no Tape, região central do Rio Grande do Sul, ou, Santa Catarina, abrigando guaranis de variadas etnias, inclusive os chamados AraxÃs. Os Jesuítas não fundariam simultaneamente DUAS aldeias com o mesmo nome de “Sant’Ana”.
Além do mais, a palavra araxãs, com til, não gerou a pronúncia araxá. Esta, nos séculos XVII e XVIII, seria escrita com circunflexo, araxâ, a exemplo de Caetê e quebra-pê, cujas pronúncias são caeté e quebra-pé, como se pode aferir no mapa do Campo Grande do capitão França.
A paleografia e a oralidade paulistas nunca confundiram essa pronúncia. Vejam-se, por exemplo, as citações do artigo “No Tempo dos Bandeirantes” em site sobre a História de Santos-SP.
Pascoal Neto, da bandeira que Antonio Raposo Tavares leva até os domínios dos tapes, charruas e minuanos, morre à margem da Lagoa dos Patos, em 1636, “neste sertão e lugar onde chamam Jesus Maria de Ibiticaraiba, sertão dos Araxans”. E ainda:

Brás Gonçalves, o velho, morre trinta e três anos depois no sertão dos Araxans. Os seus bens são logo postos em leilão, por ordem do chefe da bandeira, cap. Coutinho de Melo, e arrematados pelos bandeirantes, fiado por seis meses[12]. Confira.

As biografias desses bandeirantes podem ser aferidas na bibliografia especializada.

Outro site que conta a “História das ruas de São Paulo”, sobre rua deste nome no bairro da Saúde, explica: “Araxans, aborígines pertencentes à grande nação Carijó. Habitavam o território hoje ocupado pelo Estado do Rio Grande do Sul. Antonio Raposo Tavares e sua tropa os encontraram quando de sua arrancada para o Sul”. Confira

Registre-se, outrossim, o bairro Araxans da cidade de Presidente Bernardes-SP, o que também pode ser aferido na Internet.
No entanto, o que desmoraliza mais ainda a tese de Hildebrando é o fato de ter ele evocado repetida vezes o conto “Quilombolas – Lenda Mineira Inédita” do jornalista e não-pesquisador, Joaquim do Carmo Gama. Este conto é uma das mais prejudiciais “contribuições” do Arquivo Público Mineiro para a nossa historiografia. Uma vergonha.
Na seqüência de seu livro, Hildebrando compila as constatações do corretíssimo viajante Francês, o naturalista Saint-Hilaire, comprovando que, em 1819, NINGUÉM em Araxá sabia qualquer coisa dos índios Araxás. Pelas descobertas desse sábio francês em outros lugares, não pode haver dúvida de que se houvesse ali qualquer informação sobre esses índios Araxás, ele a teria descoberto e documentado.
A pá de cal com que o próprio Hildebrando soterrou a sua tese ou suposição, foi a citação de que a expedição de Lourenço Castanho Taques “foi a primeira a falar nos índios Araxás”. Citação vazia, sem referência documental, contrariando biografias conhecidíssimas, como é a deste bandeirante paulista em suas três gerações[13].
Outro equívoco de vários colegas e do próprio Hildebrando foi a falta de aferição às patranhas de Inácio Correia Pamplona, o traidor da Inconfidência Mineira.
Até hoje, ao que se saiba, ninguém encontrou qualquer documento que comprove os ataques que Pamplona tenha feito a quaisquer índios do Triângulo em 1765. Em 1769, com certeza, não atacou índio nenhum. Confira.
Segundo Waldemar de Almeida Barbosa, “em 1781, acompanhado de seu substituto, capitão João Pinto Caldeira, do cabo de esquadra José Antonio Guimarães e 12 negros armados, realizou Pamplona uma entrada para os lados de Araxá; chegara ao governador a notícia da descoberta de ouro no Indaiá (região vizinha de Araxá)[14] e Pamplona fora incumbido das averiguações. Passou pelas Guaritas, serra dos Paulistas, esteve nas cabeceiras dos Dourados. Foi nesta expedição que teve encontro com o Alferes Joaquim José da Silva Xavier. De regresso, enviou o cap. João Pinto Caldeira, com parte da bandeira, a explorar a Noruega e a Piraquara[15].
Como se vê, este foi apenas mais um “trabalho” de Pamplona com a finalidade de tirar de Goiás o Triângulo, como previu o projeto expansionista reinol desde os tempos de Gomes Freire e Alexandre de Gusmão, o traidor paulista.
Voltando às teses de Hildebrando Pontes e seus confrades.
Não bastassem as contradições acima demonstradas, Hildebrando, na trilha do seu História de Uberaba e a Civilização Brasil Central, publicou o seu Dona Beija, seguido por Agripa de Vasconcelos em mesmo título; depois, alguém meteu mais uma falsa lenda na História de Araxá, chamada a Lenda de Catuíra imitando o falso indianismo da Iracema de Alencar ou da Acaiaca de Joaquim Felício dos Santos.
Na ficta Lenda Catuíra, os Araxás já são descendentes dos Cataguás. O chefe da tribo se chamava Andaiá, nome, na verdade, dado pelos paulistas a um rio, onde se instalaram vários quilombos. Outro, de mesmo nome é afluente do rio Claro, que faz barra no rio Araguari.
Parece que, posteriormente, a história da dona Beija ganhou conexão, onde ela, a FORMIGUENSE dona Beija, seria filha da índia Catuíra. !!!
Hildebrando Pontes e seus confrades fizeram tudo que podiam e até o que não podiam para encontrar explicações para o nome Araxá; para provar a existência de uma remota tribo de índios Araxás habitando a região. Exageraram.
Porém, mesmo sem provar o que disseram, tinham razão: o nome da cidade de Araxá adveio mesmo de uma tribo de índios desta nação: Araxás.
O autor deste artigo nunca concordou com as teses de Hildebrando e seus confrades. Continua a não concordar, como acima demonstrou.
Vem trazer agora a informação documentada E INÉDITA na historiografia de que os índios Araxás existiram mesmo no Triângulo, hoje Mineiro.
Cabe primeiramente agradecer ao Projeto Resgate de Documentação Histórica Barão do Rio Branco, bem como, ao Centro de Memória Digital da UNB que colocou em seu site as imagens da documentação colonial de treze Estados brasileiros, incluindo aqueles da Comarca e depois Capitania de Goiás, tão necessários ao entendimento da História do Triângulo Mineiro[16].
Encontramos três documentos, datados de CENTO E QUINZE ANOS DEPOIS das batalhas do Guairá e do Tape, que dão provas cabais de que os índios Araxás realmente existiram no Triângulo Goiano.
O primeiro documento, nº 1188, datado em Lisboa a 28 de maio de 1753, é uma “PROVISÃO do rei D. José ao governador de Goiás, determinando que se leve em conta na Provedoria da Fazenda Real a despesa feita por António Pires de Campos, com o estabelecimento de uma aldeia de índios Araxás no rio Claro”. Vejamos a transcrição ainda precária feita por nós em 10.02.2008:
Dom José, por graça de Deus, rei de Portugal… etc. etc. Faço saber ao conde dos Arcos, governador e capitão general da Capitania de Goiás que se viu a vossa carta de 24 de janeiro de 1751, sobre as hostilidades que o gentio caiapó fizera ao da nação Arachás (Arachâs com circunflexo no documento), estando para se aldear,(…) e de se ter estabelecido no rio Claro uma aldeia com alguns, que Antonio Pires pudera reduzir, com o que mandáreis fazer várias despesas da Fazenda Real, e sendo neste particular ouvido o Procurador de minha Fazenda, fui servido por resolução de 22 do corrente, tomada em consulta do meu Conselho Ultramarino, determinar se leve em conta esta despesa, e aprovar tudo o que nesta matéria tendes feito. E recomendo-vos de novo o particular cuidado com que deveis procurar a educação e a conservação dos índios; e quanto à crueldade que com eles praticou João Leme, mando tirar devassa. El Rei nosso Senhor, o mandou pelos conselheiros do seu Conselho Ultramarino abaixo assinados, e se passou por duas vias. Teodósio de Cebalos Pereira, a fez, em Lisboa a 28 de maio de 1753. O Conselheiros Diogo Rangel de Almeida Castel Branco a fez escrever Fernando José Marques Bacalhau//Diogo Rangel de Almeida Castel Branco”.
Como se vê na parte negritada, os Caiapós é que atacaram os Araxás. Pires de Campos os teria aldeado no “Rio Claro”. Seria o Rio Claro para os lados do Pilões? Este seria muito longe de Araxá. A resposta está no documento seguinte.
O segundo documento, nº 1046, é anterior; é datado em Vila Boa a 29 de dezembro de 1749; é uma “CARTA do governador de Goiás, D. Marcos de Noronha ao rei D. João V”.
Na carta de 27 de junho do ano que corre, escrita ao secretário de Estado Marco Antonio de Azevedo Coutinho, pôs na presença de V.M. que tinha escrito ao reitor da Companhia do Colégio de São Paulo para que fizessem passar para aquele colégio, nomeados por ordem de V.M. para passarem a este Governo. Em os últimos dias do mês de novembro chegaram com ele os dois padres a esta vila donde presentemente ficam esperando que a ela chegue Antonio Pires de Campos a quem o gentio Arachás, que vive sobre a passagem do rio Grande no caminho que vai para São Paulo, tem pedido que querem missionário, e que querem ser governados por homens brancos.
Logo que Antonio Pires de Campos a que já mandei chamar chegue a esta Vila, determino que os padres partam juntamente com ele, a cuidarem da redução do gentio, fazendo logo diligência pelo aldearem, que se julga que eles não terão dúvida. A parte mais a propósito para a criação desta aldeia é junto ao Rio das Velhas, porque com ela se segurará melhor aquele caminho e ficará menos exposto às hostilidades que nele têm feito repetidas vezes o gentio Caiapó (…). V.M. determinará o que for servido. Vila Boa de Goiás, 29 de dezembro de 1749. As. Marcos de Noronha (rubrica legível)”.
Sobre o Rio Claro, onde se instalou a aldeia, como noticiado pela carta de 1753, a informação desta carta de 1749, de que a “parte mais a propósito para a criação desta aldeia é junto ao Rio das Velhas”, facilita bem a localização deste rio-referência da Aldeia do Gentio Araxá, ou seja, seria um “rio Claro” próximo, ou seja, “junto ao Rio das Velhas”.
Assim, como se vê no mapa de Uberaba – Escala 1:250.000, folha SF-23-Y-C, IBGE, 1970 – este rio Claro só pode ser aquele que faz barra na margem esquerda do rio das Velhas (Araguari), entre Tapuirama e Nova Ponte, tendo ao norte, na outra margem, Indianópolis, onde ficava a legendária Aldeia do Rio das Velhas.
As nascentes deste rio, que derivam a sudeste e conservam o mesmo nome, ficam a norte da serra do Chapadão, sudoeste da atual Zelândia. Porém, suas nascentes mais vigorosas – vários corgos com outros nomes – derivam a sudoeste, chegando a Uberaba. Como se pode ver no Google Earth, as aldeias jesuíticas do Triangulo (Rio das Pedras, Rio das Velhas, São Domingos, Estiva, Piçarrão e Lanhoso, entre outras)[17] ficavam todas entre os paralelos W47º57’ e W47º51’. Assim, esta efêmera Aldeia dos Araxás, é o mais provável, pode ter sido instalada nas vertentes esquerdas (oeste) do rio Claro de que se fala.
Pamplona teria passado em 1781 pelo córrego Indaiá, afluente esquerdo do rio Claro, região onde ficava a Aldeia dos Araxás instalada por Pires de Campos em 1749/1750. Registrou, ele, todos os quilombos e aldeias de gentio que disse ter atacado na sua vida em seu famoso “Mapa da Conquista do Mestre de Campo Ignácio Correya Pamplona… 1784, no entanto, o rio das Velhas de seu mapa sequer tem o afluente rio Claro. Portanto, quando passou por lá em 1781 Pamplona sequer se lembrou dos Araxás, dos quais dizem teria dito ser o destruidor[18]. Não foi.
Nenhum outro documento conhecido, nem mesmo os que falam de Pires de Campos e de suas aldeias triangulinas e goianas, fazem qualquer outra referência aos Araxás.
Em outra carta que o conde de Arcos, capitão-general de Goiás, escreveu ao rei em 24 de janeiro de 1751, ficou confirmado o extermínio dos índios Araxás pelos Caiapós:
Como o gentio arachá, que vivia sobre a passagem do rio Grande no caminho que vai para São Paulo, tinha pedido missionários, que queriam ser governados por homens brancos, pareceu conveniente que a primeira aldeia se estabelecesse junto ao Rio das Velhas, no mesmo Caminho de São Paulo, não só porque o sítio tinha todas as comodidades que costumam agradar aos gentios, como seja a abundância de caça, de peixe, muitos cocos e todas as mais frutas silvestres de que utilizam, e o país é abundante; mas também porque (…) a tal aldeia, naquele distrito, fizesse o mesmo caminho que vem de São Paulo para esta Vila defendido das grandes hostilidades que tem feito o gentio Caiapó, não só aos moradores que nele assistiam, mas também aos viandantes que por ele passavam.
Supostas todas estas utilidades e atendendo haverem pedido os gentios Arachás, missionários, determinou-se que o pe. José de Castilho passasse para Rio das Velhas e que fizesse suas casas, uma capela e plantasse roças para que, no tempo que se recolhesse o gentio, achasse logo mantimentos e tudo mais que lhes fosse de utilidade”.
Nessa ocasião, estando o coronel Antonio Pires de Campos na diligência de trazer outros gentios do norte para a mesma aldeia, “o gentio Caiapó tinha feito tal hostilidade aos gentios Arachás, que não só lhes fizera uma grande mortandade, mas depois lhes cativaram todas as mulheres e crianças, as quais levaram para o seu alojamento, para as comerem porque sempre que têm ocasião se sustentam de carne humana.
Com esta novidade foi preciso tomar diversas medidas, porque, da nação Arachás, não ficou mais do que mortos, porque os homens extinguiu, o gentio Caiapó, totalmente[19].
Quanto à Aldeia do Rio dos Velhas de que sempre tivemos notícia, na margem direita desse rio, um pouco acima da barra do rio Claro em sua margem esquerda, Cunha Matos confirma que “teve princípio no ano de 1750 para habitação dos índios bororós que vieram do Cuiabá com Antonio Pires de Campos[20]. Almeida Barbosa se refere a que “Aldeia de Santana do Rio das Velhas, Santana da Aldeia da Barra do Rio das Velhas, Barra do Rio das Velhas, Aldeia da Barra do Rio das Velhas, são denominações que se encontram nos vários documentos ao aldeamento de indígenas, fundado, segundo algumas opiniões, por Antonio Pires de Campos, em 1750. A aldeia foi logo confiada a jesuítas, que aí tiveram como primeiro superior, Pe. José de Castilho[21].
Como se vê, a aldeia ou projeto de aldeia no rio Claro (1749-1750), que faz barra com o rio das Velhas em sua margem esquerda, antecedeu a Aldeia do Rio das Velhas que conhecemos (1750-1751), à margem direita do mesmo rio das Velhas. Confirma-se, pois, que os nomes de Pires de Campos e do jesuíta pe. José de Castilho estão ligados a ambas.
Antonio Pires de Campos morreu entre outubro e dezembro de 1751 durante a viagem de escolta que fez à Paracatu, pois “na referida diligência faleceu da vida presente, nas ditas minas do Paracatu”, como atestou seu companheiro Antônio de Sá Pereira em 20 de dezembro de 1751.
Isto explica as informações da carta de 1753, sobre “as hostilidades que o gentio caiapó fizera ao da nação Araxás” que, sem dúvida chegou a ser aldeada, como confirma a carta “de se ter estabelecido no rio Claro uma aldeia com alguns, que Antonio Pires pudera reduzir”, cujos gastos ressarcidos a Pires de Campos, o rei autorizou o governador de Goiás a assumir em despesas da Capitania.
Há muitos documentos goianos sobre Pires de Campos e sobre os terríveis Caiapós nos arquivos do Centro de Memória Digital da UNB, cujas imagens vieram de Portugal e não dos arquivos de Goiás. Precisamos ler, estudar e processar as informações de todos eles. A uma primeira leitura, nada mais encontramos em qualquer deles sobre os índios Araxás.
Não conhecemos qualquer historiador goiano que tenha citado o gentio Araxá com ou sem prova documental. Luís Palacín nada disse em seus livros Subversão e Corrupção[22] e Goiás – 1722-1822[23]; nada fala de Araxás. Gilka Vasconcelos Ferreira de Sales em seu Goiás–Colônia, chega a dar uma relação das nações goianas, inclusive das aldeadas:
Impossível apontar o seu número na época colonial, por não constarem nos documentos compulsados. Possível, sim, citar as nações selvagens habitantes da Capitania: Caiapós, Xavantes, Goiá, Crixás, Araés, Canoeiros, Apinagés, Capepuxis, Xacriabás, Acroás, Caraós, Coroa-Mirim, Temembós, Tapiropés, Carajás, Javaés, Naudes, Carajaís, Gradaís, Tessemedus, Amadus, Guaia-Guassu, Xerentes, Carijós, Aricobés, Macamecrans, Noraquagés, Afotiges, Otogés, Garahús-uassu, Guanayarissus, Guapidaés, Coritis, Tapaguás e os Xerentes de Qua e alguns Bororós[24]. Como se vê, nada de Araxás.
Nem mesmo José Raimundo da Cunha Matos[25], que foi governador das armas e deputado geral da Província de Goiás, falou qualquer coisa sobre os Araxás em suas obras, incluindo o seu mineiríssimo Corografia Histórica da Província de Minas Gerais (1837)[26]. Mesmo quando falou de índios e do julgado de Araxá[27], nada falou do gentio Araxá. Sobre os Caiapós e as aldeias do Pai Pira, disse apenas que “Ainda há poucos anos fizeram grandes depredações nessa comarca e na do Rio das Velhas, mas agora raríssimas vezes penetram no rio Paranaíba. Os índios bororós e xacribás existentes nas ruínas das 19 aldeias dos julgados do Araxá e Desemboque montavam em 1821, a 871 almas que se reputavam civilizadas[28]. Realmente, esta evidência de que até mesmo Cunha Matos nada soubesse sobre os Araxás aldeados por Pires de Campos, confirma tacitamente o extermínio documentado.
O fato é que os índios Araxás sumiram da documentação e da tradição da época. Os documentos com que o Centro de Memória Digital da UNB nos presenteia pela Internet não estavam nos arquivos históricos da Capitania de Goiás. Não. Foram encontrados em Portugal, no Arquivo Histórico do Conselho Ultramarino.
O mistério do sumiço dos Araxás, como se vê, pode estar esclarecido: assim que se instalaram na Aldeia do Rio Claro tiveram seus homens totalmente exterminados pelos Caiapós, que levaram suas mulheres e crianças sobreviventes para devorarem, como informou o governador de Goiás em janeiro de 1751. Esse morticínio teria ocorrido entre janeiro e dezembro do ano de 1750.
O lugar em que viviam os Araxás, antes deles pedirem aldeamento, segundo a carta de 1749, era “sobre a passagem do rio Grande no caminho que vai para São Paulo”, ou seja, na margem triangulina do rio Grande, sendo que o Caminho que vai para São Paulo passava perto do Arraial das Abelhas, que posteriormente passou a ser chamado de Desemboque. Curiosamente, segundo Carvalho Franco, um ano antes de os Araxás terem pedido aldeamento ao governo goiano, em 1748, exatamente no mesmo lugar das Abelhas, Bartolomeu Bueno do Prado e seus parentes, teriam sido “atacados por índios caiapós e negros fugidos[29] que lhes fizeram grande mortandade, o que é confirmado pela Carta da Câmara de Tamanduá de 1793 à rainha Maria I[30].
Hildebrando e demais historiadores que trataram do tema Araxás, sem outra saída, ante a falta de documentos, tentaram arrastar os araxans do Tape em viagem fluvial e contra-corrente para o Triângulo. Deixaram-se levar pelo embuste de Carmo Gama e pela má-fé da publicação do APM do ano de 1904. As patranhas de Inácio Correia Pamplona e de seus divulgadores foi-lhes facilmente inculcadas. Depois, estavam na época do furacão tupiniquista. Assim, tudo virou lenda. Virou folhetim. Assim, não retiramos as críticas que sempre fizemos a tais procedimentos.
Porém, numa coisa Hildebrando e seus confrades estavam certos: Como se viu agora documentado, os índios Araxás existiram mesmo e o nome da cidade de Araxá só pode ter vindo desta tribo de índios: o gentio Araxá, cujo extermínio imposto pelos Caiapós foi tão horrendo que marcou para sempre com esta toponímia aquela região.
Um pesquisador de história honesto não esconde nada do que descobre. Mesmo que isto, aparentemente, possa parecer contraditório ao que escrevera antes. Descobrimos esses documentos na Internet (site da UNB) em 09.02.2008. Em 10.02.2008, escrevemos esta matéria e a disponibilizamos precariamente em 11.02.2008 em nosso MGQUILOMBO, em razão de sua importância para o Triângulo Mineiro e, em especial, para as cidades de Araxá, Ibiá, Campos Altos, Indianópolis, Araguari, Uberlândia e Uberaba-MG.
Confira tudo isto e muito mais, fazendo um download gratuito do livro “Quilombo do Campo Grande – A História de Minas que se Devolve ao Povo“, de 1035 páginas.

Mais uma vez, rendemos homenagens e agradecemos o Centro de Memória Digital da UNB. O serviço que estão prestando à nossa História não tem preço. É incomensurável. Confira.


[1] Historiador nascido em 1886 e falecido em 1953.
[2] Edição Itatiaia/Edusp de 1989.
[3] Páginas 411/418 do citado Dicionário.
[4] Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas …, p. 412-413.
[5] Nascido em 1879 e falecido em 1940.
[6] 2ª Edição – Academia de Letras do Triângulo Mineiro, 1978.
[7] Hoje, dentro do município desmembrado, chamado Indianópolis.
[8] A pronúncia correta é GuairÁ.
[9] História de Uberaba…, p. 31-32.
[10] História de Uberaba…, p. 32.
[11] E não quatorze, como “modificou” Hildebrando.
[12] Site visitado em 10.02.2008. Fato confirmado in Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil, p. 190.
[13] Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil, p. 410.
[14] Na verdade, é um dos afluentes do rio Claro, que faz barra com a margem esquerda do atual Araguari, na época, todo rio das Velhas.
[15] A Decadência das Minas e a Fuga da Mineração – UFMG, 1971.
[17] Cascalho Rico, Indianópolis, Araguari, Estrela da Sul e Uberaba.
[18] Em 24.02.2008, esta falsa informação ainda era divulgada nos seguintes sites: wikipedia; Descubra Minas; Araxá; e ainda Campos Altos . A atual administração de Campos Altos é muito culta e acertou o seu site – 24.03.2011. A cidade Araxá continua a propagar as asneira de que Pamplona teria destruído os índios araxás – confira -24.03.2011. Obs. de 11.12.18: Como se vê, parece que esses sites foram mudados.

[19] AHU-ACL-N- Goiás, documento 1084, de 24.01.1751.

[20] Corografia Histórica da Província de Minas Gerais (1837), vol. 1, p. 212.

[21] Dicionário Histórico-Geográfico de Minas Gerais, p. 220.
[22] Editora Goiana – 1983.
[23] Editora Gráfica Oriente, Goiânia – 1972.
[24] Goiás Colônia, p.309, citando o grande Cunha Matos – pode ser achado na USP-História, 981.7-S729d.
[25] Nascido em 1776 e falecido em 1839.
[26] Itatiaia-Edusp, 1981.
[27] Corografia Histórica… vol. 2, p. 65-77.
[28] Corografia Histórica… vol. 2, p. 68.

[29] Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil, p. 312.

[30] Que se refere apenas a “uma horda de caiapós, vinda dos sertões do Paraná”.