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História do Rei Ambrósio e seus Quilombos do Campo Grande, MG – Breve resumo

História do Rei Ambrósio e seus Quilombos do Campo Grande, MG – Breve resumo

©Copyright a Tarcísio José Martins

 Louvação ao GRES Acadêmicos de Venda Nova

        Falar do “Rei Ambrósio dos Quilombos do Campo Grande” é o que mais tenho feito nos últimos 40 anos, através de meus livros e de nosso site cultural, MG-QUILOMBO, dedicado a professores e alunos do Ensino Fundamental e Médio, com centenas de artigos, documentos, livros e imagens para trabalhos escolares e discussão em classe.

           Fomos o primeiro historiador a chamar a História do Rei Ambrósio e seus Quilombos do Campo grande de “a História de Minas Roubada do Povo”. Por quê?

           A Revista do importantíssimo Arquivo Público Mineiro publicou dois documentos falsos:

         Um, em 1897, chamado “Carta da Câmara de Tamanduá à Rainha – 1793”, documento 100% ideologicamente falso, feito sob a orientação do, então, Traidor da Inconfidência, Inácio Correia Pamplona. Com esse documento, a Revista do APM propagou, entre outras mentiras, que o Quilombo do Ambrósio, o de Ibiá, fora atacado em 1746 e que o rei Ambrósio fora morto. Foi sob essa mentira que o IPHAN tombou esse Sítio no ano de 2002, negando a existência da Confederação Quilombola de 27 quilombos e a sua Primeira Capital, que ficava em Cristais.

          Outro artigo, chamado “Quilombolas: Lenda Mineira Inédita”, foi publicado pela Revista do APM em 1904. Não era lenda coisa nenhuma. Trata-se de contozinho vagabundo publicado de má-fé, para dar aparência de verdade a uma carta do então “governador” de Minas, também publicada na mesma Revista, onde este contou um monte de mentiras para seu colega, “governador” de Goiás. Nesse conto mentiroso, Ambrósio teria sido um escravo africano comprado no Valongo do Rio de Janeiro por Jesuítas que, da mesma forma, teriam sido os fundadores do seu quilombo em Ibiá, e um monte de outras mentiras ridículas, também aderidas pelo IPHAN.

           Assim, nossos historiadores, desde o final dos anos oitocentos, juntando a narrativa desses dois documentos falsos com seus próprios preconceitos e racismo estrutural, vêm escrevendo coisas erradas sobre o Quilombo do Ambrósio, num contexto em que só teria existido o Quilombo de Ibiá, que Ambrósio era um negro africano comandado pelos Jesuítas e que seu quilombo fora destruído em 1746 porque, sendo ele, negro, era muito limitado, brigou com os Jesuítas e foi por eles abandonado.

            Por duas vezes pedimos a diretores do Arquivo Público Mineiro para fazerem uma publicação explicando que esses documentos, como fontes históricas, são falsos. Mas, sempre arrogantes, esses típicos “empregados políticos” se negaram a publicar qualquer coisa sob a alegação de que os próprios historiadores vão acabar descobrindo a verdade. Até hoje, apesar de nossos 40 anos de luta, menos de 10% dos mineiros sabem a verdade sobre essa gloriosa Confederação de Negros.

            Até por volta de 1993, ninguém sabia nada sobre a existência do Primeiro Quilombo do Ambrósio, o de Cristais e, muito menos, que Ambrósio fora rei de toda uma Confederação composta de 27 quilombos esparramados pelo Centro de Minas, Alto Paranaíba, Triângulo (que era Goiano) e Centro-Oeste, região chamada de Sapucaí, como provamos pelo estudo de todos os documentos arquivados no APM e do Mapa desses quilombos, desenhado pelos próprios atacantes de 1759.

         Passamos a estudar também os documentos dos arquivos das antigas Comarcas de Pitangui, Ouro Preto e São João del-Rei. Finalmente, passamos a estudar os documentos do Conselho Ultramarino das Capitanias de Minas Gerais, São Paulo, Goiás e Rio de Janeiro (77 CDs que adquirimos do próprio APM). Nosso livro “Quilombo do Campo Grande: a História de Minas que se devolve ao Povo”, com 1048 páginas e 2794 notas de rodapé indicando seus documentos-fonte, está em sua 4ª Edição.

         Em síntese: Os negros e seus Quilombos sempre estiveram presentes nas Minas Gerais dos anos Setecentos, como documentamos também em nossos livros: 1) Minas Gerais: ORIGENS (1674-1710); 2) Minas Gerais: Capitania de São Paulo e Minas do Ouro (1710-1721); 3) Minas Gerais: Capitania das Minas do Ouro (1721-1734). Então, por que, de uma hora para outra, aumentou tanto o número de quilombos nas Minas?

         Nossos estudos revelaram que Ambrósio foi um negro brasileiro, filho de uma negra livre e, por isso, já nasceu livre. As evidências mostram que era possuidor de algum recurso, talvez herdado de sua mãe negra, pois teria saído pelo sertão e fundado o seu próprio povoado. Tanto que seu primeiro “quilombo”, que não era quilombo, o de Cristais, foi chamado pelos próprios atacantes de 1759, por escrito, no Mapa de Todo o Campo Grande, de “Primeira Povoação do Ambrósio”.

           Mas, então, porque o governador Gomes Freire de Andrade mandou que o capitão Antônio João de Oliveira o atacasse em 1746?

          Foi por causa do Imposto da Capitação.

          Nunca ouviu falar disso, né?

        Por quê ? É que nossos historiadores, entusiasmados com o Imposto das Casas de Fundição e da tal Derrama da época do Tiradentes, para valorizar a ação desse Herói, sumiram com a História do Imposto da Capitação e elevaram os quintos a uma importância que nunca tiveram; ninguém do povo devia um tostão desse imposto.

          Porém, o omitido imposto da Capitação foi tão cruel que, antes de implantá-lo em 1735, Gomes Freire pediu e recebeu tropas de Dragões nas Minas; aumentou umas cinco vezes o número das tropas de Ordenança e de Capitães do Mato e fez dezenas de leis repressivas, entre as quais aquela que mudou o conceito de quilombo, considerando como tal qualquer ajuntamento de pretos fora das vilas; por outra lei passou a prender os pretos livres que não trabalhassem, isto, pelo crime de vadiagem; já, a famosa “Lei da Marca em F” estabeleceu que qualquer pessoa, branco, preto livre ou escravo fugido que fosse apanhado nesses “quilombos” receberia com um ferro em brasa, a marca em “F” na espádua; estando já com a marca, ser-lhe-ia cortada uma orelha e, depois, a outra. Os donos de escravos, perderiam o escravo para o governo, além de sofrerem confisco de bens. Brancos pobres, acabariam sendo expulsos da Capitania; pretos livres poderiam ser vendidos como escravos na Colônia do Sacramento (hoje, Uruguai).

           Tudo isto porque a Lei da Capitação de 30 de junho de 1735 proibiu o uso de moeda; só o ouro seria moeda de compra e venda; estabeleceu que “cada negro escravo ou forro pagasse quatro oitavas e três quartos de ouro; cada ofício o mesmo; cada loja grande, vinte e quatro oitavas; cada loja medíocre, dezesseis oitavas; cada loja inferior, oito oitavas; cada venda, dezesseis oitavas”. Essa lei acabou sendo estendida aos brancos pobres que, para não morrer de fome, tinham que trabalhar “com as próprias mãos”. Quem trabalhasse, tinha que pagar. Claro que todos os outros impostos, a exemplo de Dízimos, Entradas, Passagem, Cisa, etc. etc. continuaram em vigor. A captura de “aquilombados” renderia 32 oitavas de ouro por cabeça (20 pelo dono do escravo + 12 pelas Câmaras) e, quando mortos, a entrega de cada cabeça ou par de orelhas, valia 6 oitavas de ouro pagas pelas Câmaras das Vilas.

      Implantada a Capitação ocorreu exatamente aquilo que o governador Gomes Freire previra: algumas das vilas oficiais ficaram quase desertas. Os pretos livres e os brancos pobres, inadimplentes e desesperados com as penas da Capitação semestral, começaram a fugir para o sertões, se estabelecendo em improvisados arraiais. O que também fora previsto pelo demoníaco Gomes Freire, cujo novo conceito de quilombo, abrangera antecipadamente a estrutura desses novos povoados que, por isto, também passaram a ser chamados de quilombos.

          Assim, no período de 1741 a 1743, Gomes Freire arregimentou e mandou várias milícias e capitães do mato atacarem esses “quilombos” em vários locais da então Comarca do Rio das Mortes, onde a regra foi a matança total.

         Ambrósio, em sua Povoação, sempre abrigara a pretos livres e brancos pobres; tinha suas roças férteis e paióis sempre cheios de feijão, milho e outros cereais. Sempre acolheu aos viajantes, fossem brancos, pretos livres ou quilombolas. A enorme leva de brancos pobres e pretos livres fugidos das vilas oficiais se esparramou pelos sertões, sendo acolhidos por todos os quilombos e, principalmente, pela Primeira Povoação do Ambrósio, cuja população mais que duplicou.

         A fuga das vilas por causa do Imposto da Capitação estava destruindo as Minas. Gomes Freire radicalizou e, em 1º de junho de 1746, contratou o Capitão Antonio João de Oliveira e outros militares profissionais, para que arregimentassem pelo menos 200 homens e os reunissem num local chamado Sítio dos Cortumes (região da atual Entre Rios de Minas), para formação de várias Companhias de 30 homens cada, armados de catanas, pistolas, lazarinas, granadas e farta munição para, no dia marcado, atacarem o chamado “Grande Quilombo”, nome que Gomes Freire atribuíra à Povoação do Ambrósio, localizada ao norte da atual cidade de Cristais-MG.

         Assim, ao fim do mês de setembro de 1746, o Comandante Oliveira partiu com suas tropas, seguindo pela antiga Picada de São João del-Rei, para destruir o tal “Grande Quilombo”.

       Ambrósio, que então era chamado de Pai e não de Rei, tinha a amizade e gratidão de todos os quilombos das regiões de Guapé, Piumhi, Formiga, Pains e Arcos, entre outros. Sabendo disso pelos espiões que tinham nas vilas, esses quilombolas armaram um palanque e interceptaram as tropas atacantes na altura do atual Morro das Balas, hoje ao norte da cidade de Formiga-MG. A verdade documental é a de que as tropas do Capitão Oliveira foram derrotadas e nunca atacaram a Povoação do Ambrósio, heroicamente defendida pelos malungos dos mencionados quilombos.

        Mesmo com a derrota das tropas de Oliveira, os números dos escravos capitados de 1746 para 1747 mostram uma diminuição de mais de três mil escravos, provavelmente mortos, afora brancos pobres e pretos livres que também devem ter perecido na defesa de Ambrósio. Além dos mantimentos e as munições, as Câmaras foram obrigadas a contribuir com quase dez quilos de ouro para custear essa guerra; outros dez quilos de ouro foi a queda da arrecadação da Capitação sobre os negros mortos.

          A partir daí, depois de ler praticamente todos os documentos encontrados sobre o assunto, tenho a impressão de que Gomes Freire proibiu que essa derrota fosse propagada e que o nome de Ambrósio fosse proferido ou registrado em qualquer documento. Ante a miséria em que lançara as Minas, esse Governador resolveu em 1748 tomar dos paulistas a administração das Comarcas dos Goiases e Cuiabá, convertendo-as em Capitanias autônomas e, simultaneamente, extinguir a Capitania de São Paulo e anexá-la como mero “distrito” ao Rio de Janeiro, também sob seu governo.

        Por isso foi que a Carta da Câmara de Tamanduá à Rainha – 1793 inventou as mentiras de que Ambrósio fora morto e seu quilombo destruído; claro, dizendo também que, em 1746, esse quilombo já se localizava em Ibiá, sumindo com a Primeira Povoação do Ambrósio. Nenhum documento fidedigno sequer insinuou isso; essa famigerada Carta é o único a contar essa mentira embalsamada, mumificada e atestada pela Revista do APM, com o apoio de desinformados historiadores.

         A derrota de Gomes Freire foi tão grande que, apesar de seu prestígio perante o Rei e da sua sádica vaidade, teve o seu Sistema Tributário de Capitação extinto em 3 de dezembro de 1750 e substituído pelas Casas de Fundição em agosto de 1751.

         A Capitação foi tão danosa que o Marquês de Pombal, ao extingui-la, declarou em sua exposição de motivos que, ou acabava a Capitação, ou então o Reino corria o risco de perder, não só a Capitania das Minas, mas a própria Colônia do Brasil. Como se vê, não há justificativas científicas para que a nossa Historiografia tivesse omitido a História desse imposto, a não ser o nosso elitismo racista. Mesmo porque, não haveria como esconder que fora um negro que havia nos livrado do imposto mais cruel que as Minas tivera até então. Um negro…entendeu?

         Extinta a Capitação, a maioria dos brancos pobres e pretos livres puderam voltar para as vilas oficiais. Ambrósio era um negro livre, mas assumiu o lado dos quilombolas de toda a Comarca do Rio das Mortes, aos quais sempre fornecera mantimentos através dos vários portos do rio Grande e do rio Sapucaí.

        Sabendo que seria atacado novamente, mudou a sua povoação, agora com o nome de Quilombo do Ambrósio, para a região de Ibiá, então dentro da nova Capitania de Goiás, cercado de vários outros quilombolas e quilombos, onde puderam voltar a viver tranquilos com a abundância de suas roças e de seus paióis sempre cheios.

       Gomes Freire, duplamente desmoralizado, pela vergonhosa derrota de suas tropas e pela extinção do imposto da Capitação, foi deslocado para o Sul do Brasil, onde, junto com espanhóis, deveria cuidar da demarcação de nossas fronteiras.

        Mesmo assim, em várias idas e vindas do Sul, através de seu irmão José Antônio, que passara a governar a Capitania Mineira, começou a articular um novo ataque, agora, a todos os quilombos do Campo Grande, incluindo o Sapucaí.

         As vilas oficiais estavam entupidas de negros forros e livres. Desde 1756, o governador José Antônio, a mando de seu irmão, espalhou notícias falsas de que “esses pretos vadios se recusavam a trabalhar e viviam a beber cachaça nas vendas das negras forras, antros de perdição e de contato com os quilombolas do crescente Campo Grande”, ainda sob o comando do negro Ambrósio. Desde então, passou a aplicar fintas às Câmaras, ou sejam, taxas, para que estas contribuíssem com cerca de 900 oitavas de ouro por ano, com vistas a financiar um futuro ataque para a destruição de todos os quilombos do Campo Grande. A tomadia de 12 oitavas fora extinta, pois não havia mais brancos pobres nos quilombos, mas as de 20 e 6 oitavas continuavam garantidas.

         Até inícios de 1759, era para que o paulista Diogo Bueno da Fonseca atacasse as relíquias do Quilombo do Ambrósio que estariam renascendo, dentro da própria Comarca do Rio das Mortes. Depois, ante um projeto mais amplo do primo de Diogo, o também paulista Bartolomeu Bueno do Prado, o governador optou pela sua execução, adiando os planos de Diogo.

         Em maio de 1759, o governador José Antônio, irmão de Gomes Freire de Andrade, mudou a sede de seu governo para São João del-Rei, de onde tomaria todas as providências nas Guerras conta a Confederação Quilombola do Campo Grande, sob o comando do paulista Bartolomeu Bueno do Prado e seus familiares, no comando de tropas de mais de 400 homens, divididas em várias esquadras, afora outro tanto, sob comando de outros capitães, para vigiar as vizinhanças dos quilombos a serem atacados e gerir o trem bélico no ir e vir de mantimentos, armas e mais munições a serem levados aos paióis estrategicamente intercalados nos percursos das tropas de ataque e destruição.

         Esses capitães auxiliares de Bartolomeu foram: Manuel Francisco Xavier Bueno; José Luís Cardozo; Antônio de Burém; Marçal Lemos de Oliveira; Manoel Carneiro Bastos; Salvador Jorge Bueno; Luís Pereira Salgado; João Crisóstomo de Afonseca Dias; Manoel Correia da Silva; José Rodrigues de Oliveira; Sebastião Pimenta Ribeiro; Antônio Francisco França, este, o chefe do trem bélico e o Padre preto, João Correia de Melo, para abençoar a matança e tomar posse, em nome da Igreja, dos territórios tomados ou recuperados.

          Desde 1757 foram preparadas e armazenadas centenas de catanas, pistolas, espingardas, barris de pólvora, de chumbo, milhares de balas e mais de 400 granadas para armamento das tropas, pedestres e montadas.

          A 18 de junho de 1759, Bartolomeu Bueno do Prado e sua tropa de 400 homens partiram de São João del-Rei e foram se acantonar a norte da atual cidade de Piumhi, de onde partiram a 18 de agosto para destruir os quilombos dentro do Triângulo, que então era goiano e regiões dos rios Bambuí e Indaiá.

          Bartolomeu e sua tropa se acercaram do segundo Quilombo do Ambrósio, em região da atual cidade de Ibiá-MG em 1º de janeiro de 1759, mas o encontraram vazio, com claros indícios de que fora recentemente evacuado. Espias de Ambrósio haviam descoberto a iminência do ataque e acharam melhor se deslocar para outros quilombos.

           Percebendo que a maioria dos quilombolas haviam seguido o rumo noroeste, Bartolomeu seguiu no encalço. Pela madrugada do dia 7 de setembro de 1759, cercaram o chamado Quilombo da Pernaíba, a norte da atual cidade de Patrocínio. Os cachorros dos negros deram alarme, os pretos acordaram e feriu-se a refrega. Houve uma grande matança, desconhecendo-se o número exato, pois muitos quilombolas feridos morreram pelos matos, outros afogados no córrego Feio e do Quilombo. Foram feitos muitos prisioneiros.

          Bartolomeu mandou arrombar e incendiar todas as casas, paióis cheios de mantimentos e roças já em vésperas de colheita. Voltando pelo mesmo caminho ao Quilombo do Ambrósio, onde prenderam mais alguns pretos, também incendiaram e destruíram tudo.

         Antes de Retornar ao seu quartel no Piumhi, Bartolomeu e suas tropas atacaram e destruíram vários outros quilombos a exemplo do São Gonçalo, Indaiá, Marcela, Bambuí e Ajudá, onde também fizeram grande matança e muitos prisioneiros, principalmente mulheres e crianças.

           A cada quilombo destruído, os prisioneiros eram conduzidos pelas tropas do trem bélico para o Quartel Geral, no Piumhi, para serem devolvidos a seus donos, em troca do pagamento de 20 oitavas de ouro por escravo, exceto cinquenta deles, que eram líderes, que foram enviados para trabalhos forçados no Rio de Janeiro, no desbastamento de morros e reconstrução da Fortaleza de Villegagnon.

         Voltando ao seu Quartel em Piumhi em 7 de outubro de 1759, Bartolomeu e suas tropas se reabasteceram para uma sequência maior ainda de batalhas: destruição de todos os Quilombos do chamado Sapucaí, margem esquerda desse rio, no centro-sudoeste das Minas Gerais, território roubado por Gomes Freire da extinta Capitania de São Paulo. Eram 13 povoações de pretos fugidos, aliadas a paulistas renegados que repudiavam o esbulho imposto por Gomes Freire à extinta Capitania de São Paulo.

        Em 22 desse mês, bem orientado por guias conhecedores da região, a tropa partiu para os ataques a esses 13 quilombos, seguindo o roteiro imortalizado no mapa desenhado pelo próprio Capitão Antonio Francisco França, aos quais foram atribuídos os seguintes nomes: 1) O Fala; 2) Pedras; 3) Goiabeiras, com 90 casas; 4) Chapéu, com 137 casas; 5) Boa Vista II, com 200 casas; 6) Nova Angola, com 90 casas; 7) Pinhão, com 200 casas; 8) Caeté, com 90 casas; 9) Zundu, com 80 casas; 10) Calaboca, com 70 casas; 11) Careca, com 220 casas, este já dentro do atual município de Divinolândia, Estado de São Paulo. Há ainda os quilombos 12) Marimbondo e 13) Muzambo, não localizados no Mapa de Todo Campo Grande, mas citados em outros documentos.

         Toda a região estava acometida de bexigas (varíola) e os quilombolas totalmente debilitados. Assim, a matança foi fácil e a regra, havendo pouquíssimos sobreviventes, a não ser aqueles que puderam lutar e fugir, como fez o bravo e revolucionário Pedro Angola, o qual, “se não fosse preso, não haveria escravo que ele não reconduzisse para o Campo Grande”, como reclamaram as próprias autoridades.

         Ao final de outubro de 1759, todos esses quilombos já estavam destruídos. Porém, não demorou e quase todos os integrantes das tropas, inclusive o próprio Bartolomeu Bueno do Prado, também foram acometidos pela doença e tiveram que se desmobilizar.

          A epidemia fora tão forte que o próprio Bartolomeu Bueno do Prado só conseguiu se restabelecer das bexigas ao final de julho de 1760. Ao início de agosto ele e sua família se agregaram à família do seu primo Diogo Bueno da Fonseca e, formando uma esquadra de 40 pessoas bem armadas, se prepararam para executar os planos de atacar outros quilombos, principalmente o do negro chamado Cascalho. De Carrancas, onde morava Diogo, foram para o arraial das Lavras do Funil de onde partiram em 20 de agosto.

          Todos os eventos dessa expedição foram registrados pelo escrivão da Guardamoria de Diogo Bueno, em atas assinadas pelos chefes dessas famílias. Primeiro saíram por terra, abrindo picadas a foice e machado até as beiradas do rio Sapucaí. Depois também navegaram usando 20 canoas. Encontraram o Quilombo da Boa Vista 1º abandonado havia tempos, tendo, do outro lado das margens do rio Grande, a antiga Povoação do Ambrósio, também queimada e abandonada.

       Depois, chegaram ao Quilombo do Cascalho, onde encontraram os pretos, provavelmente ainda debilitados pelas bexigas e quase sem armas de fogo e os atacaram. Mataram a maioria e aprisionaram apenas 23 pessoas, quase todas mulheres e crianças; ao final, botaram fogo em tudo, casas paióis e plantações. Mesmo assim, esses paulistas tiveram muitos feridos, todos estrepados, um só por arma de fogo, além de outros acometidos da mesma varíola.

        A 2 de outubro de 1760, reuniram-se todos no deserto Quilombo da Boa Vista 1º e articularam planos de pesquisas minerais em antigos locais de Quilombo. Foi onde o Capitão Antônio Francisco França, cartógrafo experiente, terminou o desenho do Mapa de Todo o Campo Grande, mostrando onde ficava cada um dos quilombos atacados nas guerras de 1741 até 1760, cuja existência nos deu as primeiras pistas da destruição da verdadeira História da Confederação Quilombola do Campo Grande.

       Os locais visitados por essa tropa dos Buenos em 1760, segundo o Mapa do Capitão França, entre o rio Sapucaí, rio Verde, ribeirões das Araras e verde e Serra das Esperanças, foram os quilombos chamados: Boa Vista 1º; Paiol e Quilombo do Cascalho; Quilombo do Quebra-Pé, com 80 casas, mas não atacado; Quilombo do Gondum, com 80 casas, mas também não atacado, mostrando, do outro lado do rio Grande, a desabitada Primeira Povoação do Ambrósio.

          Fizeram experiências minerais em toda essa região, poucos ou nenhum indícios encontrando. Nessa ocasião foi que membros agregados à tropa pediram e receberam indicações dos Buenos para requerer sesmarias nessa região, sendo que o próprio Bartolomeu Bueno reservou duas sesmarias em seu nome, uma das quais, no local da Primeira Povoação do Ambrósio, chamada judicialmente de “Paragem do quilombo do Ambrósio”, foi concedida a Constantino Barbosa da Cunha e depois vendida e demarcada em nome de Romão Fagundes do Amaral.

          Nessa última guerra de 1758 a 1760, o custo arcado pelas Câmaras das Vilas, em fintas, chegou a mais de 20 kg de ouro, afora as mais de 120 bestas de mantimentos e munições, enviadas em pequenas tropas para vários locais no percurso das tropas.

         A população dos quilombos nessa guerra, calculada a partir da média do número de casas apontadas nesses quilombos, passaram de 10 mil, podendo chegar a 15 mil pessoas. O número de prisioneiros, pode ter passado de 5 mil, a serem entregues aos senhores, sob o pagamento de 20 oitavas de ouro, totalizando mais de 350 kg de ouro.

           Quanto aos pretos mortos, só Bartolomeu Bueno do Prado, pessoalmente, teria matado 2 mil quilombolas e, ao final, apresentou ao governador 3.900 pares de orelhas que ele, pessoalmente, teria tirado dos negros mortos, o que, pelo prêmio de 6 oitavas de ouro, equivaleria a mais de 83 kg de ouro. Levando em conta que a tropa de Bartolomeu foi composta de 400 homens, seria absurdo achar que nenhum deles tivesse matado nenhum quilombola e que o número de mortos tivesse sido menor que o número de prisioneiros: os prêmios pagos aos assassinos, à luz da Lógica Formal e Aritmética, teriam ultrapassado a 1.000 kg de ouro. Isto, afora as Cartas de Sesmarias e outras regalias concedidas aos comandantes das tropas.

          É preciso registrar a dificuldade de nossas pesquisas em razão da evidente falta de documentos relativos a quilombos no período de 1740 a 1759 e de quase todos os documentos das Câmaras das Vilas do período de 1760 a 1763, o que pudemos superar com muito esforço e reflexão investigativa por mais de 40 anos.

          Por fim, encontramos documento que estava no ultramar, da Capitania do Rio de Janeiro (AHU-RJ), carta de Gomes Freire de Andrade ao seu amigo ministro do Ultramar, Thomé Joaquim da Costa Corte Real, datada de 16 de dezembro de 1759, onde ele confirma a existência da Confederação Quilombola ao dizer que todos esses quilombos eram “subordinados a um maior, donde residia a negra corte e o chamado Rei a que os mais obedeciam”, bem como que, apesar de não saber ainda o total do “número dos mortos” disse que “só sei, que entre eles acabara o chamado Rei”, o que, à luz de outros documentos, nos permitiu desvendar e afirmar que o Rei Ambrósio pereceu em combate no dia 7 de setembro de 1759, no Quilombo da Pernaíba, localizado a norte da atual cidade de Patrocínio, MG.

         Assim, em desagravo ao Rei Ambrósio e aos demais mártires do Campo Grande, desde março de 2009, passamos a propagar a data de SETE DE SETEMBRO, como o DIA DA DIGNIDADE NEGRA, data importantíssima para que nós, mineiros, o povo mais miscigenado do Brasil, tenhamos mais consciência de nossa afrodescendência. O mineiro de raiz antiga, pode ser loiro e dos olhos azuis, mesmo assim, dificilmente deixaria de ser descendente, no mínimo, das Sabinas Negras, as progenitoras primeiras da etnia mineira. Fora reinóis! Abram alas que, em 2027, vão passar os quilombolas da Acadêmicos de Venda Nova, com o “REI AMBRÓSIO dos Quilombos do Campo Grande”. Viva a Liberdade! Viva a Solidariedade! Viva a Nossa Miscigenação!       

 São Paulo, Primavera de 2026.

©Tarcísio José Martins

Advogado, pesquisador e historiador

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