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POR QUE DEMÓSTENES É CONTRA AS COTAS PARA NEGROS?

POR QUE DEMÓSTENES TEM MEDO DAS COTAS PARA NEGROS?
Acho que descobri de onde vem o avançadíssimo entendimento do senador Demóstenes Torres. Afinal, Goiás, São Paulo e Minas já foram uma coisa só. Hoje são estados independentes, mas parece que o pensamento de seus homens-bons continua a deitar raízes nos tempos coloniais dos setecentos. Vejamos a tese.

Ao início do meu curso de Direito na paulistana Faculdade do Largo de São Francisco, em 1978-1979, aprendi em maravilhosas aulas de Teoria Geral do Estado, ministradas pelo jovem professor Ricardo Lewandowski, hoje Ministro do STF, que:
Um povo, para surgir como nação, mister é que se una num passado comum e que tenha suas leis, tradições e heróis para cultuar. Mister é que tenha uma História.
Anos depois, o estudo aos manuscritos judiciais e administrativos de Minas, São Paulo e Goiás coloniais me permitiu cristalizar em meu romance-histórico, “Cruzeiro – O Quilombo das Luzes”, o entendimento que os homens-bons setecentistas operacionalizaram para excluir da história escrita do Brasil, os negros. Copiando do romance-histórico:
Esta, (a História), só os que têm as luzes do saber é que podem escrever, preservar e cultuar. A oralidade é corrente que pode ser facilmente quebrada e os mortos não rememoram seus feitos. Os brancos, nesta Capitania e no mundo, são os que estas luzes possuem e, por isto, as outras raças dominam, como Deus assim o determinou sempre. Portanto, deve haver preocupação e providências, mas não há razão para o temor.
A intrínseca superioridade branca é inabalável. A própria anatomia dos negros, como têm demonstrado as ciências, circunscreveu-lhes um cérebro muito inferior, o que explica sua natural boçalidade. Os pardos, caribocas e outras mestiçagens de negros, concentram algum perigo na metade branca que têm, mas, esta, pode ser perfeitamente anulada pela outra parte negra e boçal que possuem, bastando que se-lhes encaminhe a soberba, dando-lhes encargos e empregos, mormente no combate à própria gentalha e aos negros, em troca de muitos títulos e pouco ouro, fomentando-lhes sempre a vaidade. A gentalha sem nome, como a boa prática tem recomendado, não deve ser muito oprimida e nem favorecida e sim, de uma forma lenta e gradual, engajada em postos de meios comandos de trabalhos, serventias e ordens; o mesmo se pode praticar com os pardos mais claros e com os paulistas.
Para que se não perca a ordem das coisas é preciso não descuidar e manter controle sobre as luzes do saber. Estas, se mal distribuídas, podem ser faca de dois gumes. Assim como há os símios e outros animais a quem Deus privilegia no aprender aos truques e meneios, conhecem-se casos de negros que conseguem aprender a ler e a escrever. Isto é um grande perigo e devia ser obstado com um maior rigor, não se permitindo que as luzes do saber viessem a chegar nem mesmo à gentalha branca e aos mulatos, pois estes, por chiste ou galhofa, poderiam delas dar rudimentos aos negros e, alguns destes, por eventuais desvios da natureza, poderiam conseguir assimilá-las tornando-se insolentes e perniciosos ao convívio com os de sua raça e escravaria.
Caso escandaloso da espécie se teve exemplo há poucos anos na Real Cidade de Mariana. Um velho padre e professor do Seminário Episcopal da dita cidade alugara por jornal a seu dono, um crioulo, moleque dos seus vinte anos, a quem, para melhor cômodo, passou a utilizar como criado particular e bedel. Em pouco menos de um ano, o negrinho surpreendeu a todos e demonstrou que tinha aprendido, com maior proveito que os alunos, todas as lições de primeiras letras, o ler e o escrever correntemente. Outros professores, padres incautos, por curiosidade ou por divertimento, cometeram o erro de introduzir aquele negro – que sem dúvida era um desvio da natureza – ao aprendizado da língua latina, da filosofia, da teologia e da moral. Em menos de dois anos, o dito negro, favorecido pelo demônio, já explanava e discutia com os professores as ciências em que estes eram mestres, distorcendo-as e corrompendo os alunos com idéias escandalosas semelhantes à lepra hebraica.
O demônio prosseguiu em sua obra. O dono do negro, arruinado e sem outros ganhos a não ser o mirrado jornal que pelo escravo recebia do padre, tirou-lhe o negro e o alugou a um advogado. Este advogado, apesar de viúvo e padre, era um tratante, falseador de papéis de processos e terras, mentiroso, lascivo e corrupto. Com ele, o dito crioulo terminou seu aprendizado maldito, tornando-se rábula mordaz e finório, rato de cartório e repartição, e falseador hábil de escritos e papéis. Certo dia, a mando do dito advogado, falsificou recibo onde, por escritos e assinatura, seu dono o entregava à propriedade do dito tratante, em pagamento de honorário e mezinhas. Seu dono, doente e troncho na cama, ficou sem nada e morreu na miséria. O castigo, às vezes, vem a cavalo. Dito padre-advogado era mesmo um birbante e o negro conheceu de todas as suas patifarias. Um dia não tardou em que dito crioulo falseou os escritos e a assinatura do dito advogado em um documento de manumissão e em outros necessários que fez registrar em câmara e cartório daquela real cidade. Fugiu, deixando a seu mestre de falcatruas uma carta, onde o informava de que estava levando consigo diversos papéis que faziam sobejas provas de suas velhacarias e que, caso fosse procurado ou preso, entregaria incontinenti tais documentos aos oficiais que o amarrassem.
Assim, ganhou sua liberdade o negro, em prejuízo de todos aqueles que, sem nenhum temor a Deus, ousaram praticar ato tão hediondo e perigoso, como é o ensinar a ler a um negro.
Era exatamente assim que pensavam os homens-bons dos setecentos.
Hoje, apesar dos falsos argumentos em que se acoitam, mutatis mutandis, parece que o ato hediondo temido pelo senador Demóstenes é o de favorecer por algum tempo o ingresso de negros nas faculdades.
Será que, no fundo, no fundo, não seria este o temor do senador Demóstenes? Muitas negras e negros se tornado mestres e doutores, inclusive na ciência em que ele se julga o maior? Multiplicando no STF o Ministro Joaquim Barbosa e fortalecendo o Quilombo da Ética que já existe dentro da Câmara e do Senado da República? Já pensou, senador? Centenas e dezenas de dedos negros apontando para a sua cara?

O senhor não imagina como o Brasil vai vibrar com isto!
São Paulo-SP e Moema-MG, 06.03.2010.
Tarcísio José Martins – Advogado e Pesquisador de História