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Rejeitar raízes negras virou ‘instituição’ no Brasil, diz jornal

Outra notícia publicada no portal da BBC Brasil faz referência a um fenômeno avaliado na primeira edição do livro “Quilombo do Campo Grande”. Nesta edição, a negação do negro quanto a suas origens e sua falta de solidariedade com os semelhantes foi tema do capítulo “Fenômeno Pardismo” (pg 280).

29 de junho, 2007

De tão comum, a prática de negar as origens negras virou uma “instituição” no Brasil, observa uma matéria publicada no jornal Miami Herald neste domingo.

A extensa reportagem, que merece um quarto de página na capa do jornal americano, analisa a relação dos brasileiros com o conceito de raça e, em especial, com suas raízes africanas.
Em primeira pessoa, o enviado especial ao Rio de Janeiro, Leonard Pitts Jr., afroamericano, relata o que chamou de “sensação de cair em uma casa dos espelhos”, na qual tudo é “igualzinho” aos Estados Unidos, “porém completamente diferente”.
“No Brasil, uma nação de indígenas e descendentes de escravos negros, colonizadores europeus e imigrantes, um homem de pele escura que poderia ser automaticamente chamado de negro em qualquer outro lugar tem um vocabulário que lhe permite apagar sua origem africana. Ele pode se dizer moreno, mestiço ou pardo. Qualquer coisa, menos afrodescendente ou negro”, atesta o repórter.
“Nisto, ele será como seus colegas nos Estados Unidos, onde negros também têm um extenso vocabulário para descrever variações de tom de pele. Mas nos Estados Unidos, não importa qual seja o seu tom de pele, sua raça não está em questão. Malcolm X era negro. Smokey Robinson é negro. T.D. Jakes é negro. Don Cheadle é negro.”
O repórter toma emprestada a expressão utilizada por uma entrevistada para afirmar:
“Se os Estados Unidos são um país onde negros de pele mais clara às vezes tentam fingir que são brancos, bem, aqui neste país ‘fingir é uma instituição nacional’.”

Ações afirmativas

O artigo encerra uma série de reportagens especiais que o Miami Herald veio publicando, ao longo da semana, sobre a vida de afrodescendentes na América Latina.
O repórter notou que o Brasil vive cotidianamente discussões sobre ações afirmativas oficiais, como a criação de cotas para negros em entidades públicas, às quais se opõem muitos intelectuais, como uma antropóloga ouvida pelo jornalista.
“Respeito os princípios de seus argumentos – raça não existe e portanto não deveria ser reconhecida em lei. Mas isto levanta uma questão: como pode haver racismo sem raça?”
A matéria escuta personalidades ligadas ao ativismo por direitos dos negros. Ao final, Pitts aproveita uma conversa com a jornalista Miriam Leitão para traçar paralelos com seu próprio trabalho.
“Enquanto ela relata as respostas que recebe (de seus leitores a cada artigo que trata do tema), vejo-me rindo de identificação. Um leitor, por exemplo, acusou-a de ‘criar um problema ao falar dele’.”
“‘Por sua causa’, disse o leitor, ‘um dia, seremos racistas’.”
“Recebi exatamente o mesmo email. Muitas vezes”, diz Pitts.
“É engraçado, só Deus sabe, mas também é enlouquecedor. Você se pergunta como pessoas inteligentes podem retorcer tanto a lógica. Como pessoas sabidas podem dizer coisas tão estúpidas.”
Para o jornalista, “você começa a entender que a negação é mais forte que a lógica. América, a terra dos livres? Nem sempre, não tanto. Brasil, a terra onde raça não importa?”
“Ela (Miriam) é uma colunista de jornal que escreve sobre raça em um país a 6,5 mil km de distância. Mas ela também é um reflexo do espelho deformante.

Fonte: BBC Brasil
http://www.bbc.co.uk/portuguese/