| e) irmandades, cortes, festas e manifestações católicas |
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| Escrito por Tarcísio José Martins | |
| 29-Nov-1999 | |
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FESTA DO REINADO DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO
O Professor Waldemar de Almeida Barbosa, apesar de saber muito bem qual é a verdadeira historia das Confrarias do Rosário, rendeu-se às falsas lendas e registrou que:
“As festas do Congado, chamadas
“Existe Depois, admite: “Sinceramente, não possuímos elementos para distinguir o que é história do que é apenas lenda, mas a verdade é que, nos primórdios do século XVIII, surgiram a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e as festas do Congado, com rei, rainha, príncipes, princesas, juízes, juízas”. Admite, no entanto que, Antonil - que não esteve pessoalmente Lenda significa tradição popular; narração escrita ou oral, de caráter maravilhoso, na qual os fatos históricos são deformados pela imaginação popular ou pela imaginação poética; legenda; mentira. A questão sobre Chico-Rei é a seguinte: como pode, uma lenda não ter origem popular; ser totalmente originada da pena inventiva do escritor Diogo de Vasconcelos ?[4] Agripa de Vasconcelos, em um romance que tenta se passar por “romance-histórico”, mas que é mera ficção, deu ficta substância ao arcabouço de Diogo, imortalizando a falsa a Lenda de Chico-Rei[5]. Muitos pretos, apesar de escravos ou gentalha, tinham mesmo aquele carisma que Deus, de forma democrática, distribui a todos os homens, não importando sua classe social ou a sua raça. Levando em conta que os reis e estados nas festas do Rosário são eleitos por voto direto dos confrades, é óbvio que deviam ser gente de muito respeito e queridos em suas sociedades. Todas as capitanias tiverem os seus pretos carismáticos. A coroação de seus líderes era coisa natural entre os negros de quase todas as nações. Mello Morais Filho, em “Festas e Tradições Populares do Brasil” cita “A Coroação de um Rei Negro em A criação de Diogo de Vasconcelos e, hoje, a mistificação da figura de Chico-Rei por Agripa de Vasconcelos - diga-se de passagem, um verdadeiro “samba-histórico do crioulo doido” - salvo melhor juízo, têm, no caso mineiro, interesse e utilidade certos: inculcar a falsa idéia de que o negro é mesmo um ser submisso e de que só pode ser vencedor se obedecer a regra do jogo imposta pelos brancos. Ora, tendo existido Chega a ser ridícula, também, a associação dessa falsa lenda ao surgimento da Festa do Rosário O malungo R. Joviano[7] encontrou estatutos e composição da mesa da confraria paulistana, comprovando documentalmente que a irmandade e suas festas já eram uma realidade em 1711, portanto, contemporânea e igualzinha às irmandades de Vila Rica. O ermitão de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São Paulo, inclusive, andou pela capitania de São Paulo e pela de Minas tirando esmolas para a irmandade, chegando a juntar dez mil cruzados[8]. Quanto à existência do culto, remontou-a, documentalmente, aos primórdios da civilização brasileira: “(...) mando que se dê à confraria de Nossa Senhora do Rosário lhe darão de minha fazenda 1 cruzado e os mordomos mandarão dizer uma missa rezada que com esta condição lho deixo o dito cruzado. Agosto de mil quinhentos e noventa anos. GARCIA LEME”. Grifos, nossos. “Declaro que mando que me rezem cinco missas a Nossa Senhora do Rosário. PAULO FERNANDES - “Deixo mais uma rês a Nossa Senhora do Rosário. BARTOLOMEU RODRIGUES - “Digo eu Manoel Gonçalves mordomo da Confraria de Nossa Senhora do Rosário que recebi de Pedro Leme trezentos e vinte réis que sua mulher deixou à dita confraria por verdade o assino aqui hoje 4 de junho da era de noventa e quatro - MANOEL GONÇALVES”[9]. Lembremo-nos de que muito antes de descobrirem o Brasil, já haviam os portugueses aportado em África e que lá também os seus missionários catequizaram os povos africanos, mormente os bantos. Por exemplo, segundo Castro Carvalho, os portugueses aportaram em Angola no ano de 1483 e, por volta de 1500, desembarcaram os primeiros missionários começando o trabalho de evangelização[10]. O mesmo se deu em muitos outros países africanos. Se o culto do Rosário já era antigo em Portugal e se deu tão certo com os negros, evidente que esta experiência deve ter-se iniciado na própria África e não Falando da religião na Ilha de São Tomé, Cunha Matos, em 1836, informa que “A Igreja de N. Sª do Rosário dos Homens Pretos é de alvenaria, mediana grandeza e foi construída no princípio do século XVII. Tem vários privilégios reais; e uma grande irmandade confirmada pelo Papa Clemente XI, (...) “As Festas do Rosário e do Sacramento são mui estrondosas (...)”[11]. Dá notícia de que na Ilha do Príncipe, a Igreja de “N. Senhora do Rosário é grande, decente, e com três altares bem ornados; tem uma boa confraria”[12]. Também no Distrito de Luanda, em Angola, havia capela de Nossa Senhora dos Remédios, Capela de Nossa Senhora do Rosário e capela de Santa Efigênia e Nossa Senhora da Misericórdia[13]. Registra que em Moçambique havia uma Igreja grande dedicada a Nossa Senhora dos Remédios[14]. A verdade, portanto, está mesmo com R. Joviano: “As devoções a São Benedito, a Nossa Senhora do Rosário já vieram prontas do Congo Africano, por obra dos missionários europeus, principalmente portugueses. Proliferaram no Brasil, pois as irmandades e confrarias dos negros, as festas de coroação dos reis etc. É que, assim ninguém os perseguia. Também não desconfiavam que sob a proteção de Nossa Senhora do Rosário estava a devoção a Yemanjá e tutelado por São Benedito executava-se todo o mágico preceito dos cultos aos Deuses-Orixás”[15]. Quanto a esta última parte, achamo-la cabível somente no que concerne aos negros sudaneses. Os compromissos (estatutos) das confrarias de Pretos do Rosário, pode-se dizer, no Brasil todo, datam do início do século XVIII e são todos iguais, parecendo cópias uns dos outros. Assim o são os de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Goiás e, mesmo Essas confrarias, em todo Brasil[16], se tornaram muito poderosas econômica e socialmente e, efetivamente, muito fizeram pelos seus malungos. Numa capitania onde a grande miscigenação foi seu traço principal, evidente que o culto se tornaria de “todo o povo”, inclusive dos brancos, principalmente porque, dificilmente um “branco” mineiro deixa de contar na sua ascendência genealógica com algum sangue negro, resquício, no mínimo, das incontáveis Sabinas negras, progenitoras primeiras da etnia mineira. Por que, então, tais confrarias, a partir do final do século XIX, teriam perdido toda a força e poder de congregar pessoas em todo o Brasil, permanecendo vivas e atuantes quase que somente em estados mediterrâneos, mas, principalmente, A primeira resposta a esta pergunta está, sem dúvida, na real e verdadeira etnia mineira, muito mais miscigenada com o negro do que com o índio. Miscigenação antiga, onde a raça e cultura bantu realmente se incorporaram, se fundiram com as culturas paulista e lusitana do século XVIII. A segunda resposta está no fato de que, enquanto o Sul (mormente São Paulo) e o litoral brasileiros receberam uma nova e imensa leva de novos negros e de novos brancos no século XIX, o movimento “branqueador” dos paulistas acelerado a partir de 1870 até meados deste século XX, não surtiu muito efeito em Minas, exceto no chamado “Sul de Minas”, não sofrendo, portanto, as Minas Gerais, a enorme influência da cultura européia do século XIX advinda desse “movimento branqueador”[17]. A terceira e última resposta vamos encontrá-la na política da própria Igreja que sempre atuou auxiliando o governo no controle da ideologia brasileira, o que, aliás, era sua função político-institucional. Até meados do século XIX, a quase totalidade das vilas brasileiras, pode-se dizer que todas elas, tinham a sua igreja do Rosário ou, no mínimo, a suairmandade de pretos e pardos[18]. Isto é verdade dobrada e incontestável em relação a Minas Gerais. O nome de Nossa Senhora do Rosário, no entanto, não serviu de topônimo para muitas vilas e cidades, mas muitos povoados, quando de sua ereção em vila, tiveram o seu nome trocado pelos homens bons que chegaram depois. Porém, no que tange a acidentes geográficos (rios, corgos, morros etc. do Rosário) e, principalmente, como nome de logradouros públicos, o Brasil todo está cheio de antigas ruas, praças, largos etc. do Rosário. Isto, sem se falar dos que, no final do século XIX e começo do XX foram mudados, a exemplo de São Paulo, onde o Largo do Rosário passou a chamar-se Praça Antônio Prado e, a rua do Rosário, XV de Novembro. O que teria acontecido ? A Igreja - e isto se comprova sobejamente nas instruções aos párocos registradas nos livros de tombo paroquiais do final do século XIX[19] - foi, aos poucos, introduzindo modificações no culto e nas cerimônias: a) multiplicando as confrarias e, às vezes, até falsificando suas origens históricas; b) mudando os oragos das igrejas e capelas para, por exemplo “Nossa Senhora do Rosário de Fátima”; “Nossa Senhora do Rosário e São Gonçalo” etc.; c) fundindo cultos e criando novas festas e devoções, aformatadas às manifestações da Festa do Rosário, a exemplo da Festa dos Reis Magos, Festa do Divino, Folia dos Santos Reis; estas festas não existiam no século XVIII e surgiram somente no século XIX; d) proibindo mesmo e ameaçando aqueles que insistissem na “selvageria” e nos “pecados que se cometem” nas festas de Congada (mudaram o nome: já não era mais Festa de Nossa Senhora do Rosário e sim Congada); e) demolindo igrejas e capelas de Nossa Senhora do Rosário em todo o Brasil. Confira esse último dado e ficará estupefacto com a simultaneidade das demolições em todos os Estados Brasileiros. As irmandades do Rosário de Minas Gerais sofreram todos esses ataques da Igreja, porém, mormente no Centro-Oeste, resistiram a tudo e continuam com sua força e com suas festas intocadas e puras, verdadeiro tesouro de cultura e tradição do povo mineiro. Os mineiros abraçaram também as festas do Divino, Santos Reis etc., mas, além de darem a elas uma forma de “Reinado”, jamais deixaram que substituíssem a do Rosário, sua principal devoção e tradição. Sobre Chico-Rei, só mesmo os escritores, os intelectuais[20] e a imprensa mineira[21] insistem na divulgação. Nunca vi qualquer verso antigo sobre o mesmo; nunca vi qualquer dançador dizer qualquer coisa do citado Rei-Trabalhador-Submisso; muitos sequer ouviram falar - por seus pais e avós - do tal Rei que as elites-genéticas mineiras querem lhes enfiar goela-abaixo. Quanto a Ambrósio, segundo pessoas vividas da região de Cristais e de Ibiá, era sempre referido por seus pais e avós como o “Pai Ambrósio”, pela sua bondade e liderança. O culto ao rosário foi instituído por São Domingos no ano de 1216, em Tolosa, França, ano da fundação do Ordem dos Dominicanos[22]. O Prof. Waldemar de Almeida Barbosa diz que o culto foi introduzido no Brasil pelos capuchinhos[23]. Como se viu, no entanto, no século XVI já existia essa devoção aqui no Brasil e nas possessões lusas da África; os estatutos das confrarias, no Brasil todo, são praticamente iguais e datam do início do século XVIII[24]. Muitos viajantes do século XIX atestam que os mineiros andavam sempre com um rosário no pescoço. Jean Baptiste Debret em seu quadro intitulado “Pauvres Tropeiros de Minas”, mostra três tropeiros mineiros com sua inconfundível indumentária, trazendo ao pescoço um terço do rosário com cruz de madeira e bentinhos[25]. Ayres da Mata Machado Filho[26], entre os vissungos colhidos “Otê! Pade-Nosso cum Ave Maria, securo camera qui t'Angananzambê, aiô... Aiô!... T'Angananzambê, aiô! ... Aiô!... T'Angananzambê, aiô! ... É calunga qui tom'ossemá, é calunga que tom'Azambi, aiô! ... Ai! Ai! Ai! Pade-Nosso cum Ave-Maria, qui tá Angananzambê-opungo, Ei! Curietê! Ai! Ai! Ai! Pade-Nosso cum Ave-Maria qui tá Angananzambê-opungo. Ei! dunduriê ê. etc.”[27]. O termo Angananzambê (Senhor Deus) é uma das muitas variações de N'zambi ou Azambi[28], portanto, não se trata de nenhum “sincretismo religioso”, pois que se trata do próprio Deus, o Javé dos bantus. As confrarias do Rosário nas Minas Gerais do Século XVIII tiveram um papel social relevantíssimo, em que pese o enorme contingente negro e miscigenado de sua população e, a exemplo das confrarias de São Paulo, entre outros, tinham os seguintes objetivos: “estímulo maior à solidariedade; fortalecimento do sentimento religioso pela devoção em conjunto; possibilidade de desenvolvimento do culto aos mortos; incremento do desejo de ser alforriado, pela adoção dos princípios de liberdade e a compra cooperativista da respectiva carta; o ensejo das festas coletivas, sem a incômoda fiscalização do 'sinhô”[29]. Diria ainda que as cerimônias e festas davam azo à manutenção das tradições culturais africanas e oportunidade de dar vazão ao espírito criador e artístico de que, por natureza, são dotados os negros, mormente para as artes plásticas, dança e música. Não resta dúvida, também, de que dentro dessas irmandades funcionavam as chamadas “maçonarias de pretos”, conectadas com o mundo subterrâneo dos escravos fugidos, Quilombolas e garimpeiros, a quem, sempre que possível, davam cobertura, ajuda e proteção. Sobre a questão dos direitos dessas entidades sui generis, inclusive em nível do direito canônico, muito há que ser estudado sobre essas resistentes irmandades ainda hoje de fortíssimo apelo popular. É de se recomendar que cada corte – tanto de brancos como de pretos – se organize em associação ou sociedade e que, numa mesma cidade ou região, essas associações se filiem às irmandades que, por sua vez, podem se organizar melhor a nível estadual e, depois, federal. As irmandades do rosário são uma das maiores forças, inclusive turístico-econômicas, das tradições simbióticas advindas da cultura negra brasileira, em especial nas culturas mineira e a goiana. 2003 © Todos os direitos reservados a Tarcísio José Martins |
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| Atualizado em ( 12-Jul-2010 ) |
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